
Quero não ter nenhuma condescência com o tédio,
não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável.
A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa,
quer ela aconteça ou não.
Expectativa por si só, já é um entusiasmo.
Quero o fato de ter uma vida prática e sensata
e que isso não me roube o direito ao devaneio.
Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo.
Que eu não tenha medo nem vergonha de desejar.
Quero uma primeira vez outra vez.
Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço,
uma primeira caminhada por uma nova cidade,
uma primeira estréia em algo que nunca fiz,
quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego,
quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.
Quero ventilação,
não morrer um pouquinho a cada dia
sufocada em obrigações e exigências de ser a melhor qualquer coisa do mundo.
Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas,
arejar minha biografia,
deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.
Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor.
Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros,
sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo.
Me permitir ser um pouco insignificante.
E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação,
conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei,
deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma,
me conectar com as minhas outras possibilidades de existir.
O que eu quero mais?
Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor,
menos corportadinho, menos refém de reuniões familiares,
faculdade, bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã.
Eu quero mais tempo livre fora de casa.
E mais abraços. E receber mais flores. (ou não)
Pois é ninguém está satisfeito.
Ainda Bem!
