quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PRETÉRITO! MAIS QUE PERFEITO?

Há uma saudade que, por vezes, me habita. Uma saudade do que não chegou e - quem pode dizer se virá? - que insiste em fazer casa na minha casa de dentro. Uma saudade que não se lembra, mas que antecipa as coisas. Uma coisa que se enrosca no meio dos dedos das mãos como um cipó feito de letras e sensações. Por vezes, se me foge, enfia-se no meu peito e faz um nó por entre os seios e finalmente feito faca, encrava no peito e quase faz doer. A dor nao acontece porque, há muito tempo fiz um trato com o fio de suas navalhas e elas, por conta do acordo, desistem de me cortar. Podem até, aqui e ali, tirar-me o sono, mas também não o fazem por completo. Meu sono continua, só não tem tido a capacidade de calar o mundo ou mesmo a ti, que me visita, ainda que não em sonhos, da forma como os conhecemos.
E as palavras e a saudade do que nem veio passeiam em vigília sobre o meu sono que se deita com enormes olhos escancarados, como se buscassem uma brecha, um espaço vazio por onde eu possa escoar ser perdoada por não lhes fazer caso.
Junto com tudo, um estranho medo de perder a memória dos caminhos do teu corpo, de esquecer-me do que conheci. Essa saudade de futuro parece que vai tentando te desfabricar, desmontar teus pedaços, um a um e eu resisto, como quem repete incessantemente a tabuada para uma prova que virá.
Não sei bem o que é isso que dói uma dor que não é bem dor. O mais próximo que conheço é a saudade de tudo que não sei em que tempo vou conjugar. Parece-me um passado, um pretérito. Mais que perfeito? Responde-me tu.
Débora Denadai